Trens

Ultimamente tenho pensado bastante sobre trens. Sim. Trens, vagões, plataformas e principalmente estações. Elas são um belíssimo cenário. Todas aquelas pessoas embarcando, umas felizes, outras tristes. Todas as mãos acenando uma despedida e todos os abraços já deixando saudade. 
O Maquinista liga o trem e o motor estremece. O relógio da estação marca as badaladas da partida e o trem vai diminuindo cada vez mais ao longe da vista do que ficaram. As pessoas começam a dispersar, a limpar as lágrimas e voltam para seus afazeres e aquilo que elas tiveram na estação passa a ser apenas uma memória de afeto, saudade e é a esperança de um reencontro que dá forças para suas pernas mexerem e seus corpos andarem.
Agora estamos dentro do trem. Ele está cheio. Cada pessoa que está dentro dele tem seu lugar marcado e seguem a viagem tranquilamente, animados com o que os espera no fim dela. As horas se passam e das caixas de som é possível ouvir a voz do Maquinista anunciando a próxima parada. Alguns se levantam e começam a pegar suas bolsas e malas, prontos para deixarem o trem, certas de que aproveitaram seu tempo lá. Elas ocuparam seu espaço e talvez tenha chegado a hora de irem para outro trem, ocupar outros assentos marcados. O trem para e essas pessoas descem. Os que ficaram dentro olham pela janela vendo seus breves companheiros partirem e pensam quando serão eles do lado de fora, sendo observados se afastando a lentas passados pelos de dentro.
A próxima parada chega. Uma única pessoa se manifesta. Triste de descer sozinha ela se prepara e finalmente chega a hora. Ela olha para o chão à sua frente e a certeza de que aquela é a parada certa vai embora. Olha em seu bilhete e vê que há várias outras paradas futuras que a fizeram escolher justamente essa. Ela não sabe o que fazer. Deixar para trás todas aquelas paisagens que ela poderia ver sem ter certeza de ser o certo. Mas ela deve decidir logo. O trem está partindo, o trem não espera. Ela levanta seu pé e salta do degrau, pousando no chão e vendo a última chance de tomar um caminho diferente virar poeira diante de seus olhos. Enquanto observa, ela vai lentamente se convencendo de que aquilo era o melhor, que não havia outra opção e que sua vida deveria ser a partir daquele destino em que havia chegado. O trem era só algo passageiro.
Outra parada veio. Um grupo se levantou para descer, todos de uma vez. Mas eles não queriam descer, queriam continuar com as outras pessoas lá dentro. Todos os passageiros tentaram arrumar um jeito do grupo ficar, mas não tinha como. Havia chegado a hora de descerem. Unidos pelas memórias que compartilhavam o grupo se viu fora do trem e fora do convívio. Viu os acontecimentos virarem lindas lembranças e seguiram suas estradas, sem olhar para trás, para algo que já não era mais hora.
Mas algo inesperado aconteceu. Uma pessoa embarcou. Sim. O trem viu-se recebendo um desconhecido, que logo se acomodou e começou a conversar. Esse estranho rapidamente ocupou seu lugar e se tornou parte daquela viagem, se tornou um passageiro daquele trem. Com suas experiências diferentes ele trouxe novos assuntos, novas imagens e novas palavras e assim acrescentou o inesperado na viagem de todas aquelas pessoas que só conheciam o universo do interior do trem. Várias outras paradas vieram e todos notaram algo em comum. Algumas pessoas saíam do trem e outras entravam. Umas davam lugar às outras. Ora, é claro que ninguém era substituído ou esquecido. Os que já haviam descido eram sempre lembrados. O passageiro engraçado, o dorminhoco, o falante. Cada conversa era única, casa pessoa era única, cada risada era única e ninguém tomava o lugar de ninguém. Eles desciam para abrir espaço para as outras entrarem. Abriam espaço para as novas fotos que coloriam as paredes do cinzento trem.
Infelizmente tinham aqueles passageiros não muito agradáveis que estavam lá só para dificultar a viagem. Mas a essas pobres almas só resta dizer que elas fazem parte da viagem, são elas que causam a confusão para deixar os outros passageiros mais pacientes, esperançosos e para aprenderem a enfrentar qualquer obstáculo a ser encontrado durante o longo percurso da viagem.
“Estamos neste momento nos aproximando da penúltima parada” – ouve-se o Maquinista dizer pelo auto-falante. “Aqueles que forem desembarcar arrumem suas coisas e se posicionem”. Os passageiros foram se ajeitando e os que ficariam começaram a perceber que todos aqueles que saíram do trem foi para o melhor. Eles estão percorrendo seu próprio caminho e muitos que entraram fizeram mais bem para a viagem do que os que foram embora.
Penúltima parada. O trem sai da estação. Os trilhos tremem. Os vagões balançam. Os corações anseiam.
“Última parada”. O Maquinista puxa o freio e o trem para. Última estação, último destino. Aqueles que ainda permanecem são obrigados a descerem, são obrigados a deixar o trem partir. Eles saem e em lágrimas se despedem do Maquinista e do trem, que a esta altura já fazia parte da viagem de cada um de uma forma que eles não previram quando colocaram os pés na velha madeira da locomotiva pela primeira vez. Mais abraços são dados, mais acenos são feitos e mais palavras de despedida são proferidas.
O Maquinista olha sua mão, cheia de bilhetes rasgados, cada um com sua própria história. Muitos bilhetes diferentes. Uns cheios de destinos anteriores, uns com poucos; uns que permaneceram durante pouquíssimo tempo dentro do trem, outros que ficaram por várias e várias paradas. Poucos os que embarcaram na primeira e permaneceram até o fim, muitos que entrando na primeira não se contentaram com a viagem e anteciparam sua descida. O Maquinista percebeu que alguns que entraram no meio da viagem eram destinados a descerem antes, mas por apreciarem a paisagem decidiram ficar até o fim. Muitos os que passaram, muitos os que se foram e alguns que ficaram. Mas no fim o Maquinista se orgulhou de carregar tantos bilhetes, de ter feito seu trabalho do melhor jeito que podia e de ter recebido tantos passageiros. Nenhum será esquecido, independente de como tenha se comportado. Aos que gostaram da viagem ele deve sua eterna gratidão e aos que não gostaram ele dá a promessa de melhora. Aos que desceram antes, mesmo não querendo, ele deseja o melhor que as outras viagens possa oferecer e a garantia de que jamais serão esquecidos, aos que permaneceram mais tempo do que o esperado ele entrega seu caloroso carinho. Obrigada aos que ficaram e ficarão, durante muitas viagens, muitas histórias e muitas paisagens até a última buzina soar, até o Maquinista descer e até até a viagem acabar.

O fim (por enquanto)

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