Sons da vida

“É o homem da vassoura” que me tirava da cama em um salto e me fazia grudar no teto como um gato assustado. Precisamos de vassoura? Mamãe perguntava. Não querida, não precisamos. “Olha a pamonha com queijo na sua porta”, que me enchia a boca com uma vontade enorme de me deliciar daquele sabor doce e único. Vamos mamãe, temos que comprar pamonha, eu suplicava em meios às negações de minha mãe. Precisamos levar para o vovô, ele gosta tanto de doce. E eu, na minha inocência da pequeninice conseguia convencer aquela mulher decidida e forte que me criava. “Sabiá lá na gaiola voou, voou, voou” e a menina que ouvia essa canção, com seu dedinho, desenhava asas em sua imaginação enquanto eu observava meu irmão arrepiar os cabelos ao se encostar nas tomadas que povoavam as paredes da casa. E mais canções de ninar eu cantava com meus amiguinhos.
Logo de noite, já um pouco mais crescidinha, preparada para dormir e sonhando com bruxas e magias eu conseguia ouvir o trenzinho da alegria encher os corações de todas as criancinhas da minha rua. As cores que ele emanava entravam pelas janelas de meu quarto e dançavam na parede, estendendo a mão e me convidando para me juntar à aquela explosão de cores. Ora, coloridas como eram podiam muito bem se virar sozinhas. Esse cenário já não é mais para você, diziam as minhas colegas. Eu já era grande o suficiente para evitar o trenzinho da vergonha. E mais canções dos desenhos animados eu cantava com meus coleguinhas.
Na escola eu me empolgava. “We’re all in this together” minhas amigas cantavam. Foi-se embora a época dos desenhos animados. Agora é só pop, rock, samba. É o que tá na boca do povo, é o que tá na rua. As palavras são lei, as músicas são as armas. E eu, já menina moça, me rendia às delegações feitas pelos gigantes do rádio que mandavam e desmandavam nas cores da vida e guerreavam com os que queriam nos consertar. As visões pareciam saídas de páginas de revista, mas que rapidamente perdiam a cor, se transformando em pequenas tiras de papel, esquecidas, jogadas ao fundo de uma gaveta. Oh, como as cores mudavam, como os sons mudavam e eu no meio de tudo ganhei de brinde um passaporte para a terra dos adultos. E enquanto isso, o leão me esperava do outro lado do guarda-roupa, até que a luz do lampião foi neutralizada pelos raios do sol e a criança, moça, mulher, não mais se importou em cantar palavras com seus amiguinhos.
Os anos se passaram e com eles vieram a maturidade. O desabrochar da flor desencantou as doces palavras que a pequena dentro de mim havia um dia escutado. “Hay muchos sueños que vivir”, mas você já é muito velha para isso, afirmavam os funcionários. As doçuras das primeiras primaveras foram substituídas pelos ruídos dos carros e o canto da sereia de inocente passou para o interesse. Ah, o que eu daria para trocar as passadas barulhentas dos saltos das mulheres pelos cantos dos sabiás. O que eu daria para substituir os xingos trocados entre os piratas pelas cantigas confortantes de minha mãe. O que eu daria para acabar com o estouro dos canhões e trazer de volta a firmeza das histórias de meu pai. E, acima de tudo, eu daria tudo para reanimar os desenhos e deixá-los conviver com as letras musicadas da juventude. Daria tudo para acalmar o mar, acalmar o amar. Com isso, para minha adulta eu digo: pare de matar a minha criança.
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