Não vagueies mais, caminhe

Eu passava despercebida pela porta de um cemitério pensando na dor que era viver. Eu passava despercebida pelos incontáveis carros estacionados em uma fila perfeita e linear. Eu não percebi que dentro do cemitério muitas lágrimas estava sendo derramadas em cima de uma pequena criança inanimada, imóvel e pálida que do outro lado da vida ia ao encontro da morte. Estava tão desatenta que não vi a enorme pedra que se materializou bem à minha frente, me levando de uma só vez aos braços do chão. Apoiei minhas mãos no cascalho seco tentando, em vão, me levantar. Enquanto ficava lá deitada, inerte, sem conseguir tirar meu corpo e o pior, a minha mente, daquele estado deplorável tive a terrível sensação de estar mais próxima do fim do que qualquer um daqueles que jaziam a sete palmos do chão. Foi então que lentamente pude perceber pequenas penas pretas formando um caminho à minha frente, uma estrada de tijolos amarelos que levavam mais a fundo no cemitério. Magicamente consegui me levantar e seduzida pelas singelas penas segui a trilha. Se tivesse olhado à minha volta teria visto que nada mais existia além de mim, das penas e do horizonte.

No fim da trilha um mausoléu me esperava, cercado por dois vultos que, por causa da penumbra clichê dos cemitérios, não consegui identificar à primeira vista. Quando meus olhos se ajustaram à aquele cenário macabro pude ver as duas grandes asas que saim das costas do rapaz que estava sentado em cima da lápide. Meu primeiro pensamento foi chamar os seguranças, dois loucos invadiram o cemitério. Mas logo percebi que de nada adiantaria porque a louca era eu. Sentada de costas para o rapaz com a fantasia de pássaro estava uma mulher com um semblante triste e apático que se parecia demais com a imagem que eu via no espelho todos os dias quando acordava. Com a única diferença que ela parecia tocada pelo tempo, que além de tudo ainda havia sugado sua alma e sua vida do corpo. Pisquei duas vezes na esperança de voltar ao meu tombo na entrada do cemitério, mas eu ainda não tinha desenvolvido a capacidade de me teletransportar e naquele dia Dorothy havia precisado de seus sapatos vermelhos.

Uma súbita tristeza invadiu o meu coração e pude ouvir uma voz rouca que se dirigia ao canto mais profundo do meu ser:

– Quão tristes são aqueles que escolhem parar de viver, mesmo vivos, os que estão mortos mesmo respirando. Quão triste é ver um corpo desabitado, vazio, oco por dentro. Sua metade veio ao meu encontro, enquanto a outra ainda está presa ao solo. Sua casca anda, fala, vive, mas mata lentamente o você e abre mais espaço para eu me aproximar, me moldar e me apossar de mais uma alma para meu mundo.

Enquanto eu ouvia essa voz, o corpo com asas pulou, ou melhor, levitou para baixo e tocou o chão graciosamente, revelando seu rosto simetricamente esculpido e seu corpo descoberto sem nenhuma falha. Sua voz era hipnotizante e à medida que se aproximava da mulher sentada na cadeira, linhas pretas surgiam no rosto dela e sugavam o resto de vivacidade que ainda existia naquele receptáculo da vida. Aquela visão me causou um incômodo enorme e como se respondendo ao que acontecia, comecei a sentir meu rosto queimar e vibrar e nas palmas de minhas mãos pude notar as mesmas linhas que tinha visto segundos atrás no rosto que me encarava.

Precisava fazer aquela dor parar e por isso me joguei em cima da mulher à minha frente, para tentar fazê-la reagir ao que estava acontecendo à sua volta. Eu gritava, gritava e gritava e ela nada respondia. É como se ela nem estivesse ali mais, como se o corpo ainda vivesse, mas a alma já tivesse ido embora a muito tempo. E eu fiquei sem saber o que fazer. Como tirá-la daquela situação deplorável? Como me tirar daquelas garras?

Ele se afastou da lápide o suficiente para que eu visse o nome que estava escrito: o meu, rabiscado e tremido, mas o meu nome. Então, como se uma luz tivesse se acendido sobre minha cabeça eu finalmente compreendi quem era aquele ser alado e misterioso que sugava meu corpo só porque eu já não mais vivia ali. Uma agonia profunda tomou conta do meu ser, como se estivesse presa em uma quarto, sem janelas ou portas e as paredes estivessem se movendo, me esmagando. Mesmo todas as forças presentes no meu corpo não eram suficientes para reprimir as palavras cheias de medo e terror que saíram da minha boca:

– Thánatos vá embora, não quero você aqui. Me desenlace, me deixe ir e leve essas asas para bem longe de mim. Me deixe seguir meu cinzento caminho, sozinha, como sempre estive. Aqui estou e aqui eu quero estar. Tenho medo do além, de alguém. Sinto a água subindo, estou afogando, lentamente. Me dê um galho para me segurar, me socorra. Meu horizonte está vazio, sem sol. Meu reino está desabitado, sem chuva. Meu corpo está vazio, sem vento. Me alivie dessa dor e me prometa que não a conhecerei mais. Me ensine a esquecer ou apague minha mente.

Ao terminar de falar senti o suor escorrer e se misturar às minhas lágrimas. Ao fundo uma risada tenebrosa, mas ao mesmo tempo confortante ecoava e era carregada pelo vento, preenchendo toda a extensão do cemitério. Aqueles olhos vermelhos me olhavam com um misto de desaprovação e contentamento e comecei a sentir um pavor enorme da morte. Não queria ficar igual aquela mulher na minha frente. Por mais que tudo na minha vida estivesse desmoronando ainda era melhor do que viver com a presença da morte e daquelas linhas pretas em meu corpo.

Vi o nome da lápide tremer e o anjo começou a riscá-lo com uma linha preta e grossa. Porém, ele parou na metade do caminho sinalizando que eu ainda não tinha chegado ao fim. Ainda tinha meia vida de rabiscos e linhas tortuosas para percorrer.  Finalmente, com um desdém de quem já não mais se decepciona com os passos inconsequentes da humanidade, falou:

– As pessoas precisam aprender a não morrer. A morte é algo inevitável, mas ela não é o fim. O fim é você escolher matar seu interior. Eu antes de você, você antes de mim, nós antes da morte. Tantos milhares de segundos e memórias se encontram entre vocês e a escada para o outro lado do véu. Então porque fechar o coração para a vida? Porque fechar o coração para esses incontáveis momentos? Porque escolher sair da estrada por causa das gigantescas pedras que bloqueiam o caminho? Por isso eu digo que as pessoas não precisam de mais discursos sobre motivação ou sobre superação. Elas precisam de discursos sobre saber viver. São tantas as que vão ainda fortemente amarradas à vida, tantas as que morrem merecendo viver e tantas as que sofrem vendo tristes almas sacrificarem cada batida de seus corações. Muitas pessoas desejariam estar no seu lugar e ter uma hora, um minuto, um segundo a mais aqui e você simplesmente anseia que os ponteiros de relógio corram mais rápido. Muitas pessoas veem seus projetos inacabados serem lançados ao vento enquanto você caminha, ou melhor, vagueia pela terra sem propósito em seus olhos. Acorde e aprenda a viver ou iremos atrás de você e quando menos esperar seu rosto estará marcado com nossas linhas.

Enquanto falava, aquele anjo das sombras ia caminhando, se integrando novamente à neblina do cemitério e levando consigo toda a paisagem que eu via. Eu estava de volta ao chão do cemitério, no mesmo lugar que havia caído horas antes e por um breve momento achei que fosse tudo um sonho. Mas ao me sentar e avaliar o estado do meu corpo notei que eu havia sido marcada pela morte para voltar a viver. Na palma de minha mãe estava desenhada uma pena e em baixo a frase, naquela letra torta, que me perseguiu pelo resto dos meus dias: “Não vagueies mais, caminhe”.

Foto: Google Imagens

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