Ouro, Fogo, Megabytes e Brasil

Confesso que estou bem assustada. Não consigo parar de pensar na história que acabou de se desenrolar nas páginas amontoadas na minha cama. Porque a verdade é que a riqueza do nosso Brasil, da pátria amada, vai muito além do brilho inebriante das minas de ouro. Vai muito além da água cristalina que colore os cartões postais de nossas praias e, acima de tudo, vai muito além das profundezas dos poços de petróleo. Nossa riqueza está na boca do povo, nas lendas que passaram por toda a nossa família e que hoje são esquecidas ou reservadas apenas para os pequeninos. Se exaltamos tantas outras mitologias por que não exaltar as nossas também? Elas são uma expressão pura do Brasil e trazem em suas palavras as marcas de todos os povos que se uniram para que hoje nós pudéssemos ser tão vivos e coloridos. Entender o passado e a cultura de um povo desenvolve um sentimento de respeito e compreensão que, infelizmente, parece ter se enfraquecido na humanidade. Por isso, envolver nesse lado do nosso passado, contado por essas lendas, nos fará conhecer mais sobre nós mesmos. Valorizar as raízes dos nossos ancestrais (uau, fui realmente afetada pelo folclore) assim como tantos outros povos valorizam as suas.

Além disso, vamos admitir: O folclore brasileiro é sensacional. Quem já viu um padre perder a cabeça? Ou um boto rosa encantador roubar o coração de várias mulheres? Sem falar na graciosidade do canto da Iara, que seduz e arrasta os homens para as profundezas dos rios. Tudo isso em perfeita harmonia com a mãe natureza, que os alimenta e os suporta. Falam sobre companheirismo, equilíbrio, respeito, devoção e fé nas crenças e valores. Tinha me esquecido do quão é fantástico esse mundo por trás das histórias. E é por isso que estou assustada, porque precisei que um menino de 12 anos, do interior do meu próprio estado, se envolvesse em um RPG Live para me lembrar disso. Ele me lembrou que o amadurecimento não tem o direito de roubar o folclore de nós e que é possível sim envolver esses personagens incríveis em uma aventura perigosa e ao mesmo tempo bem engraçada.

Tudo começou quando Anderson Coelho foi abordado por um halfling estranho dentro de Battle of Asgorath (o World of Warcraft da história), que o ofereceu um serviço de hacker em troca de uma recompensa bem gordinha. O halfling falava em um português muito correto e parecia que sabia tudo sobre o garoto. Quer dizer, quase tudo. Porque se fosse tudo mesmo ele saberia que Anderson não conseguia hackear nem o próprio computador. Ele era apenas um líder de guildas promissoras e bem sucedidas. Mas o poder de persuasão do pequeno homem moveu toda a vida de Anderson e de repente ele estava entrando em uma mansão peculiar e aparentemente atemporal bem no meio de São Paulo. A primeira coisa estranha era aura sobrenatural pairando sobre os habitantes da casa, a segunda era o fato de Anderson se alocar no quarto de um fantasma e por último, mas a mais grave, era a falta de livre acesso a internet. Sim, as crianças precisavam ler para ganhar alguns minutos online. Como Anderson manteria seu segundo lugar no ranking de BoA? Ele tinha era que dar um jeito de cumprir sua missão e ir embora daquele lugar. O problema é que a medida que mais informações foram jogadas em sua mente, mais ele percebeu que estava se envolvendo profundamente com aquela parte da raiz brasileira que ele não conhecia e que uma vez dentro, não tinha volta.

E vamos combinar que ele lidou muito bem ao descobrir um mundo onde capelobos, caiporas, sereias, botos e sacis existem. Qualquer outra pessoa (incluindo eu) teria surtado, mas não nosso jovem Anderson. Ele não recuou quando o mandaram recuar e acima de tudo ele foi fiel a companheiros que até uma semana antes ele nem fazia ideia que existiam. Deixou a magia do folclore o envolver e criou garras para que sua simplicidade adolescente o levasse a enfrentar perigos devastadores que ameaçaram colocar fogo em toda a cidade. Quem acha que personagens folclóricos são inofensivos e pacíficos está redondamente enganado. São Paulo nunca foi tão ameaçada quanto pelas labaredas do Boi Tatá.

A história mostra a lealdade e a esperança através de crianças que convivem com seres fantásticos, mas nem por isso deixam de viver na realidade. O roteiro dinâmico nos envolve completamente e a leveza com que a ação é tratada forma um cenário concreto e convidativo em nossa mente. O livro recebeu a dose perfeita de sustentabilidade e nos presenteou com trocadilhos incríveis. Sério, que não riu com os nomes criativos dos animais da Tina? Além disso, provoca em nós uma vontade muito grande de entrar na aventura e viajar junto com os personagens. Quero sair nas ruas com eles e seus coletes marrons para coletar mudanças e boas ações. Vamos?

Essa história lindinha (❤) e empolgante está aqui:

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Arquivo Pessoal

O Legado Folclórico: Ouro, Fogo & Megabytes

Felipe Castilho

Editora: Gutenberg

Ano: 2012

Edição: 3ª

Número de páginas: 286

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6 comentários sobre “Ouro, Fogo, Megabytes e Brasil

  1. Amei os dois primeiros parágrafos do seu texto! Que paixão ao expressar sentimentos de surpresa e admiração! ❤ Já li esse livro e estou lendo o segundo volume agora. São encantadores, amo muito essas lendas! Sinto-me realizado, inclusive, ao ler romances tão bem elaborados e tratados com carinho contendo a nossa cultura. E os trocadilhos são um ótimo bônus.

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