Torta e Letras

Estou como essa folha branca. Vazia. As palavras resolveram ir embora da minha cabeça para as paredes ao meu redor. A luz, fraca, deixa minha mesa sobre a penumbra e preciso apertar meus olhos para conseguir enxergar as letras a minha frente. Aqui parece um mundo dentro de outro mundo. Um piano silencioso ocupa o fundo do estabelecimento e as auras de Shakespeare e Cervantes preenchem o ambiente. As falas incansáveis das pessoas a minha volta são indecifráveis para mim. Estou fechada em meu próprio universo e tudo o que escuto é o gotejar da água em minha mente oca. O garçom bate à mesa colocando um receptáculo de felicidade à minha frente. Desculpe a interrupção. O doce da torta dá sabor à minha boca, contrastando com o estado lastimável do meu espírito. Oh fortuna, me destinasse a sentar aqui e observar todas essas pessoas, presa em minhas próprias correntes, e a ficar alheia à realidade desse espaço atemporal. A modernidade e antiguidade dividem a mesa ao meu lado e conversam sobre política e economia, fazendo breves pausas para molharem a boca com uma boa xícara de chá. Elas concordam e discordam sobre retrocessos e avanços. As pessoas vem e vão e as duas permanecem lá, como se também fossem alheias aos zumbidos e movimentos de outros. Mas elas prestam atenção em tudo. Vez ou outra as duas senhoras respondem aos apelos sinceros dos perdidos que buscam uma direção ou uma luz em seu caminho. Aquela mesa está livre. Parecem as donas que se misturam e conversam com os clientes. No fim, lembram de cada rosto que um dia já passou por elas. Alguns se esquecem e voltam para dizer as mesmas palavras, outros tropeçam e deixam cair pratos e mesas e alguns são os que ajudam a limpar a sujeira. Mas o que mais me tocou foi o fato de nunca se separarem, ficaram todo o tempo juntas para contar o presente, o passado e o futuro àqueles que esperaram a resposta das sábias mentes.

“Me deixei levar por esse silêncio” de minha alma e me excedi em meus devaneios. Minha torta há muito que não passa de poeira no meu prato e o gosto adocicado já não se faz mais presente. As páginas, uma vez brancas, estão agora respingadas de letras coloridas. Não mais preto no branco. O coelho está aqui ao meu lado olhando para o seu pequeno relógio de bolso. Está atrasada, está atrasada. Pensativa e cabisbaixa, guardei aquele aroma boêmio em minha memória, deixei minhas notas de agradecimento e pulei de volta no meu buraco. Acorde Alice, volte a viver.

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