Outubro

Outubro começou com uma energia muito positiva. A natureza estava vibrando mais forte e a barreira entre nossos mundos estava se enfraquecendo. Isso é bom. A vivacidade da energia nos restaura a vida e o sopro gélido conversa conosco. São as bruxas que saíram para brincar. Dá para sentir as ondas vibratórias se alterando a todo o tempo. Ora boa, ora ruim. São os fantasmas das bailarinas que morreram no teatro. O balançar das saias faz as flores voarem do chão e espalham os papéis picados para longe do altar. A oferenda se bagunça toda. O que fazer? São as caveiras que pintam seus rostos.

No meio das noites de outubro eu acordo sempre no mesmo horário, para ir à janela ouvir as risadas e os passos ligeiros na rua. Conseguia ouvir as vozes das abóboras que guardavam as portas das casas, o toque dos ossos enferrujados com o chão e de repente tudo ficava laranja. Era a mula sem cabeça que acendia as velas para iluminar a escuridão da rua. Junto desse cortejo peculiar, uma certa noite, consegui ouvir um diálogo que me fez pensar por horas e horas.

“Eu quero uma festa para mim. Sério. Porque é a minha casa que acaba sempre cheia de flores brancas e inundada de lágrimas de tristeza? Eu quero cantar, dançar e comer igual todo mundo faz. Quero colorir minhas caveiras com flores e brilhos e deixá-las sorrindo para os que puderem, nesse dia da festa, sair e passear pelas ruas dos vivos. Sinceramente, estou cansada de toda essa morbicidade.” Ri tão alto com o que tinha acabado de escutar que meu irmão acordou no quarto e brigou comigo. Mas a culpa não era minha. A culpa era da morte.

Depois que o acesso de riso passou percebi que ela tinha razão. Ela não é nem nunca foi o fim para ser tratada com repúdio e como uma força maligna da natureza. É só uma senhorinha com uma foice que visita as pessoas uma vez na vida. Ela é a interrupção de um estado para o renascimento em outro. Bom, pelo menos foi isso que ela disse para sua amiga caveira que seguia atenta às reclamações da senhora.

Os dias foram se passando e com isso chegou o fim de outubro. Chegou o dia tão esperado. As bruxas finalmente saíram de seus esconderijos e foram visitar suas irmãs que ainda insistem em viver com os humanos. As cortinas entre as dimensões ficaram tão finas que era possível transitar entre elas e eu pude aproveitar a magia da minha noite preferida do ano. Troquei minha energia com eles e renovei meu espírito.

Na noite da véspera do dia dos mortos, já em novembro, meu corpo levantou-se naquele mesmo horário de sempre, mesmo minha mente sabendo que já não veria nada. Outubro tinha acabado. O dia das bruxas já tinha passado. Mas ao olhar pela janela despertei completamente e fui pega de surpresa pelo que parecia ser o cortejo mais bonito passando por aquela rua que à dois dias tinha recebido tantas outras almas. Na frente, mostrando o caminho, vinha a formosa Dama de la Muerte, pálida como a luz da lua, trajando vestes pretas, mas decorada com flores de todas as cores. Seu rosto ressaltava os ossos por baixo da pele fina e a dava uma aparência assustadora, mas ao mesmo tempo confiante e segura. No topo da cabeça carregava uma coroa de flores vermelhas que combinavam perfeitamente com os grossos e pesados brincos que pendiam de suas orelhas esqueléticas. Ela esbanjava confiança e na mesma hora me senti mais viva e ao mesmo tempo mais próxima daquela morte. Ela liderava as bruxas, as mulas sem cabeça, os curupiras, os fantasmas, capelobos e todos os underdoogs que foram banidos de nossas terras por aqueles que não os aceitam.

Fiquei maravilhada com sua presença. A Dama de la Muerte representava o oposto do que muitos pensam ser a morte. Aquela coisa sombria e tenebrosa foi substituída por uma figura alegre e festeira que, uma vez no ano, abre a passagem pelo portal das flores para que os mortos merecedores possam vir visitar seus parentes queridos que ainda não passaram para o outro lado. Estes, que tem ciência desse acontecimento, fazem uma grande festa com muita música, dança e comida (especialmente comida) para celebrar o reencontro e a passagem dos que já foram para um lugar melhor. Eu não sabia de nada disso até presenciar com meus próprios olhos essa celebração. E ora, como era colorida essa festa. Vi os reencontros na rua repletos de carinho e felicidade ao invés da amargura dos cemitérios. Vi a homenagem à vida ao invés da lembrança da morte. Vi a esperança ao invés do desalento e vi a saudade ao invés do aprisionamento.

De repente, várias borboletas monarcas preencheram o ar, rindo como crianças brincando em um jardim. Uma delas parou no parapeito de minha janela e com seus minúsculos olhinhos me perguntou: Você quer voar conosco? Vamos dar uma volta por aí e voltamos antes do amanhecer. Deixei minha mente voar com elas e me senti criança novamente. Saltei para a rua para aproveitar do festejo todo que inundava minha rua. As cores vibrantes coloriam o som animado da dança e ali consegui ver a morte e o renascimento de mãos dadas. Eles consertaram o altar.

O sono me atacara novamente e me peguei bocejando no intervalo entre as músicas. Os primeiros raios da manhã ameaçavam apontar no céu e vi os últimos abraços sendo dados. Me despedi dos novos amigos que me ensinaram a ver a vida (e a morte) de uma outra forma e voltei para minha janela. A chama da vela que havia me acompanhado todo esse tempo, azul e brilhante, se apagou e a fumaça subiu lentamente, brincando e desenhando formas no ar. Meu irmão se remexeu na cama sem nenhuma noção da magia e da beleza que eu havia acabado de presenciar. O quarto foi ficando cada vez mais escuro e a rua foi novamente tomada pelas sombras que dali a pouco daria boas vindas ao sol. Os vários olhos que ali estavam se viraram e me encararam uma última vez, soprei a última vela e fiquei com o cheiro, a memória e o gosto apimentado de milho e abacate. Até o próximo dia dos mortos, eu desejei a todos eles. Voltei para a minha cama refletindo e entendi o verdadeiro significado de toda a comemoração: honrar a vida. Não quero ser lembrado pela maneira como morri, mas sim pela maneira como vivi.

P.S. Obrigada ao grupo Arte de Viver com Propósito pelo maravilhoso Festival de Dia de los Muertos que me trouxe tanto conhecimento sobre a incrível cultura mexicana e trouxe a reflexão que transformei nessas singelas palavras acima ❤

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