Feios – Scott Westerfeld (Resenha)

“Dizem apenas que seus erros foram se somando, até que tudo desmoronou como um castelo de cartas”

Tornar-se perfeito aos 16 anos é o destino de todas as pessoas. Imagine-se passando por uma cirurgia na qual seu corpo será radicalmente alterado, ossos quebrados, pele trocada, cabelo modificado para no fim ficar perfeita, sem nenhuma falha, livre de espinhas ou estrias. Sonho de qualquer um, né? Depois desse procedimento você muda para uma vida de festas, curtição, sem responsabilidades ou deveres em uma linda casa em Nova Perfeição enquanto os feios esperam na Vila Feia. É nesse mundo que vive Tally, uma jovem de 15 anos que almeja acima de tudo a perfeição. Perto do seu aniversário a única coisa que ela consegue pensar é na cirurgia e em como vai ser sua vida, cheia de glamour, aventuras, romance e completamente contrária à vidinha de feia. Mas nesse meio tempo ela conhece uma nova garota, Shay, que não tem nem um pingo de vontade de ser a senhora perfeitinha.

Essa nova amizade ameaça os planos de Tally quando Shay decide fugir para uma colônia de “revoltados” e tenta convencer a amiga de todos os jeito a acompanhá-la. Ela dizia que toda essa história da cirurgia servir para acabar com a desigualdade e o preconceito entre as pessoas era papo furado, mas Tally não conseguia ver isso e relutava a todos os momentos ceder aos argumentos de Shay. Porém, com o desaparecimento da amiga, Tally vê seus planos perfeitos virarem Fumaça bem diante de seus olhos.

A narrativa é bem tranquila, com pouco enfoque nos detalhes do cenário, mas com redobrada atenção à construção da imagem das pessoas. As características físicas dos personagens são muito marcadas e são constantemente mencionadas. O início é um pouco cansativo, mas você logo logo se envolve com a intensidade das situações e da escrita. A ansiedade passa a habitar as páginas do livro e vamos conhecendo mais personagens que roubam nosso coração. Em um cenário pós-apocalíptico, a história traz um mundo onde a aparência é o que conta e para não haver desigualdade todos se tornam iguais. A diversidade é abominada porque, segundo as velhas revistas e relíquias, foi por causa dela que o homem se destruiu.

A previsibilidade está exatamente no viés futurista e por isso o livro se torna bem mainstream. As discussões de cunho social sobre a importância da aparência e sobre a alienação em massa já são bem comuns e desestimulam o desenvolver da história. But fear not! Scott Westerfeld conseguiu criar uma personagem principal diferente do clichê e isso dá o gás necessário para inflamar a chama da curiosidade que nos permite ir até o fim (drama? talvez). Tally é uma garota que vive uma vida medíocre e não tem nenhuma noção da manipulação que existe por trás do sistema que rege sua sociedade e, ao contrário do esperado, ela não quer que aquele modo de viver mude. Ela deseja mais que tudo ser parte desse mundo perfeito e deixar isso para trás não é uma opção. Ela é acomodada e mesmo depois de tantos argumentos e tantas evidências ela ainda se recusa a acreditar que a vida que ela tanto sonhava era na verdade bem feia.

Essa construção da personagem se mostrou muito interessante porque é possível ver traços de uma escrita psicológica do autor. À medida que os segredos vão sendo jogados no ventilador, Tally enfrenta vários dilemas internos porque uma parte dela queria acreditar no que estava descobrindo, mas a outra parte se agarrava à todas as chances de encontrar sentido em tudo. Assim, o autor consegue entrar na cabeça da personagem e narrar com maestria esse conflito que ela vive consigo mesmo, nos deixando por dentro (literalmente) da situação e nos forçando a viver as confusões que Tally vive. Não antipatize com a personagem só porque você quer gritar na cara dela o quanto ela é ingênua por acreditar em palavras inflamadas por falsidade (e isso é revoltante). Ela é só mais um reflexo de um lado da sociedade. É o outro lado da revolução, que foi tão manipulado que ainda não consegue se ver fora das correntes da ideologia controladora. Ela é uma garota extremamente influenciável, que é levada a agir contra seus amigos porque bate o pé para não acreditar que o que conheceu a vida toda não passava de uma mentira. Dói mudar e esse é um preço que ela não está disposta a pagar. É preciso que sombras de seu passado caiam sobre ela para que uma semente de mudança brote em seu coração.

Eu me surpreendi com o livro (adoro quando isso acontece) porque, além de construir uma personagem principal bem diferente das protagonistas desse tipo de história, ele traz um questionamento sobre nós nos aceitarmos. Shay queria ser feliz do jeito que ela era, mas para Tally isso não era uma possibilidade. Ela não se aceita e concorda com um procedimento extremamente invasivo porque a vida inteira os outros a fizeram acreditar que aquele era o único caminho para a felicidade. Ninguém estava satisfeito com o jeito que era e isso levou à construção de uma sociedade manipuladora e cruel. Até que ponto isso parece com nossa realidade?

Outra coisa que me deixou bem feliz na história foi o traço psicológico do autor. Gosto quando é possível ver a evolução do personagem ao longo da narrativa e quando as lutas e dilemas internas são bem desenvolvidas esse processo fica mais visível. São reviravoltas repentinas e quando a gente acha que finalmente entendeu a cabeça dela, ela vem e nos puxa o tapete, mostrando que a gente não sabe é de nada. Para quem gosta de ficção pós-apocalíptica com os elementos clichês (acho essa palavra um pouco forte) que ela exige, mas com algumas surpresas ao longo da trama vai gostar de conhecer o mundo de Tally. Acima de tudo, vai passar a não querer mais uma vida perfeita, apenas uma simples, velha e feia.

Infos preciosas para você garantir o seu ❤

feios_capa
Google Imagens

FEIOS

Scott Westerfeld

Editora: Galera Record

Ano: 2010

Número de Páginas: 415

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