Perder-se ou reencontrar-se?

Eu nunca havia me sentido tão inútil assim. Ali, no meio daquela sala, rodeada por infinitas imagens minhas refletidas nos espelhos eu tentava, mas não conseguia. Eu olhava para as outras que, perto de mim, faziam tudo na hora e no tempo certo. Eu era a piada. Eu era a grande piada. E aliada à inutilidade, veio a amarga desmotivação. Seria melhor desistir. Guardar meus pertences e ir embora daquele lugar que, a pouco tempo atrás, tinha me feito sentir como se eu pudesse ter tudo. Mas ninguém pode ter tudo. Nunca. Eu era a piada. Eu era a grande piada que não percebia que ali não era seu lugar, que aquele não poderia ser seu sonho, que aquela era uma habilidade que não estava destinada a ser sua. Queria me derreter nas gotas de chuva que batiam violentamente contra o telhado alto e barulhento do salão em que estava. Eu derreteria e quem sabe as coisas não funcionassem da forma como deveriam. Mas nem os pingos de chuva podem decidir todo o seu percurso. Um bueiro aberto ou uma pedra no meio do caminho os fazem desviar e seguir um novo e desconhecido trajeto. Não poderia virar a chuva. Eu era uma piada. Quem sabe voar junto às folhas das árvores. Mas nem assim eu seria livre, o vento forte e raivoso toma para si só o dever de moldar o curso dos que se atrevem a enveredar pelos trechos aéreos. Não tinha para onde escapar. A sensação de liberdade era carregada para longe pela brisa gélida e tudo que sobrava eram as amarras frias e metálicas que prendiam meus pés e minhas mãos às linhas desenhadas e imutáveis de uma expressão que por muito tempo me convenceu de que era a certa para mim.

Então, de mãos dadas aos ponteiros do relógio o tempo ia passando e eu me aprisionava mais e mais a dores que não eram minhas, a sabores que não eram meus e cores que não eram flores. Era a única verdade que eu conhecia. Forçava o inforçável em meu corpo e sua única resposta era a frustração de ver minha própria estrela se apagando bem diante de meus olhos. Olhos esses que se distanciavam daqueles que os observavam. Eu era a piada. Toda a força impelida por meus movimentos para chegar até ali foi destruída em uma única sequência, uma única pergunta. Tem diferença? Ao que parece, na vida tudo é diferente, mas tudo é igual. O paradoxo do viver. Você pode ter o corpo, mas se não tem a alma, não serão horas no centro ou uma imensidão de acessórios que te darão o que, aparentemente, só o lado de fora anseia. Serão figurinos e mais figurinos vazios por dentro, esperando, pendurados nas araras, o sopro da vida que tirará as etiquetas e os fará brilhar perante as luzes ofuscantes e os olhos curiosos de outros seres que não compreendem o que significa estar ali.

Eu pisquei novamente, de volta à aquela sala redonda enquanto outra música saia das caixas de som. Dessa vez, diferente, convidativa. Algo estremeceu no meu peito. Um ardor quente e familiar percorreu todos os cantos do meu corpo e meu coração sentia como se aquela era a música que estava destinado a ouvir. Aquela era a dança que estava destinado a dançar. Respirei o ar renovado e consegui sentir braços e pernas se libertando, soltando as correntes que os amarravam em uma forma que não era a deles. As cores voltaram para as paredes e algo em mim foi destrancado. Já não poderia contê-lo mais. Um novo sentimento. Uma nova artista. O novo. Eu não era a piada. Eu era a história não acabada, a história adormecida que havia despertado pela inquietude e reconhecimento de uma liberdade que eu conhecia apenas nos sonhos. Ela era contada pelos contornos quebrados que outrora foram confinados em uma pequena e quadrada caixa, sufocando-os e ignorando seus altivos pedidos de socorro. Eles se libertaram e eu me tornei a própria expressão da felicidade que não sentia dores ou sabores deslocados, mas sentia os amores que por aquelas novas palavras despertavam. Finalmente estava onde deveria e a espera valeu a pena. Agora reconheço. Eu precisava me perder para conseguir me reencontrar, precisava quebrar para conseguir me consertar. Precisava apagar para conseguir reacender e brilhar ainda mais forte.

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