Conte-me sua vida antes que eu morra – Ediane Kátia (Resenha)

Os seres humanos gostam de bater um papo né?! Principalmente os brasileiros. É encontrar na rua, na fila do banco, do supermercado, que já puxa um assunto e 5 minutos depois, cada um já sabe tudo da vida do outro. E quer coisa melhor do que conversar e trocar energia? Pena que muita gente tenha se esquecido disso. Pena que a correria da corrida tenha nos tirado o ar e impedido de falar. Pena que perdemos o costume de algo tão simples quanto conversar. Às vezes tudo que uma pessoa precisa é de um bom desabafo e tudo que a outra precisa é doar os ouvidos. Eu não sei se é coisa da minha cabeça, mas se essas duas pessoas se encontrassem elas atenderiam suas necessidades não é mesmo?

É exatamente isso que Domiciliano se lembra, ao ser diagnosticado com câncer já em uma fase avançada, que a humanidade perdeu muito tempo se preocupando com a carreira, com o dinheiro, com as descobertas científicas e esqueceu de se preocupar com o que de fato sustenta todas estas buscas: as próprias pessoas. Pensando nisso, Dom recusa o tratamento médico e decide viver seus últimos dias conversando. Ele coloca um papel em branco na sua máquina de escrever e sai pelas ruas de sua cidade em busca de histórias escondidas que esperam um sinal para se revelarem. Assim, ele conhece diversas pessoas (e eventualmente alguns animais) que não sabiam que existiam outras dispostas a ouvi-las e rapidamente Dom se vê, não coletando informações para alimentarem sua escrita, mas semeando ajuda para alimentar outras vidas.Em meio a esse processo ele estreita o vínculo com sua família e percebe que toda a luta que teve na vida, todo o esforço empregado para alcançar seus objetivos não seria nada se não tivesse aquelas pessoas que ama ao seu lado.

Conte-me sua vida antes que eu morra é uma história que trata do (re)descobrimento do fato de que ninguém vive sozinho. Cada pessoa que Dom conversa percebe que dividir seu fardo com outro as vezes ajuda a aliviá-lo e pode inclusive salvar sua vida. Recorrer ao outro não é sinal de fraqueza. O livro é bem dinâmico, com uma narração simples e objetiva que ajuda a leitura fluir e se desenvolver de maneira clara. Porém, a história apresenta poucos detalhes, o que impede a construção dos cenários da história porque ficamos sem elementos para desenhá-los. Isso contribui para a fluidez da narrativa porque os acontecimentos mudam muito rápido e a história não fica paralisada muito tempo no mesmo lugar, mas atrapalha um pouco na imersão do leitor.

Pelo foco ser nos acontecimentos e não na descrição, os personagens são apresentados ao invés de serem construídos. Assim, o leitor fica por dentro de tudo que acontece no exterior da história, fica por dentro dos fatos e dos desencadeamentos destes, mas fica por fora do interior de cada personagem, de seus conflitos e pensamentos. Isso, porém, não atrapalha a evolução da narrativa e ao final conseguimos perceber uma certa mudança de comportamento em Domiciliano. Ele ouviu e deixou ser ouvido, lidou com sua doença não como uma tragédia, mas como mais um obstáculo que ele não deveria deixar que o segurasse. É um conto tocante que em suas breves páginas nos faz refletir sobre o valor que damos aos nossos ouvidos e o peso de carregar nossas palavras sozinhos. Conte-me sua vida antes que eu morra e quem sabe assim não podemos transformá-la em uma história?

Infos super úteis para você contar sua vida ❤

conte-me
Foto: Amazon

CONTE-ME SUA VIDA ANTES QUE EU MORRA

Ediane Kátia

Produção Independente

Edição: 1ª

Ano: 2016

Número de páginas: 51

Onde comprar: Amazon

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