A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley (Resenha)

Esse livro realmente merece uma segunda chance. A primeira vez que li eu não dei a devida importância para a intensidade da história e ao final já não me lembrava de nada. Muitos dias e alguns meses se passaram e lá estava eu, sentada na mesma mesa que a A Senhora da Magia, que suplicava para que escutasse novamente suas palavras com um novo olhar e com uma nova cabeça. Ainda bem que atendi a seus apelos porque à medida que as palavras iam conversando comigo, sentia como se fosse a primeira vez que as ouvia e pude sentir as brumas me levando para um lugar maravilhoso e mágico.

O lugar: Grã-Bretanha. A época: evidências indicam Idade Média. O assunto: a vida do mais nobre cavaleiro, Artur. Para um pouco, dá uma rebobinada porque precisamos fazer um acréscimo. A vida do mais nobre cavaleiro, Artur, mas contada pela visão das mulheres que proporcionaram e orquestraram sua passagem pelo mundo dos mortais. A primeira delas não podia ser outra senão sua mãe, Igraine, nascida na Ilha Sagrada de Avalon e senhora do Duque da Cornualha. Os primeiros acontecimentos narrados no livro envolvem a vida de Igraine em Tintagel, a luta que ela passa para negar seu marido, cumprir seu dever perante a deusa e desposar seu amor, seu destinado, o futuro rei de toda a Bretanha, o grande Uther Pendragon.

Além disso, conta a infância da segunda mulher que definiu a vida de Artur, sua irmã. Morgana ainda era pequena quando perdeu o pai e viu sua mãe se casar com Uther, se transformando em rainha de toda a Grã Bretanha. Obrigada a viver sob o teto do homem que claramente não a reconhecia como parte da família e obrigada a cuidar de seu pequeno meio irmão (e herdeiro do trono) ela agradece aos céus quando sua tia Viviane, a Senhora do Lago, a tira de seu sofrimento e a leva para viver em Avalon. Assim, Morgana chega à ilha como aprendiz e dedica seus preciosos anos da juventude aos desígnios da deusa mãe.

O resto da história narra a trajetória de Morgana em Avalon com pequena aparições especiais de seus familiares que viviam em outra realidade e quase em outro tempo e que por isso ela já não conseguia reconhecê-los mais. À medida que a história vai desenrolando acompanhamos a evolução da personagem, os conflitos com as responsabilidades e os deveres e o embate entre seu gênio firme e a exigência de uma vida de entrega total à uma causa maior. O ápice de seu treinamento, o grande teste para o qual ela vinha sendo preparada, era o ritual no qual a deusa se apossaria de seu corpo e entregaria sua pureza ao Galhudo, o Gamo Rei, a fim de marcar a passagem para uma nova fase e unir os poderes da natureza. Porém, as coisas saem do controle quando Morgana se vê entregue a alguém muito familiar e se rebela contra a crença que a sustentara, a ensinara a viver e a dera uma família. Ela não queria ser mais uma marionete das vontades da deusa e por isso abandona a ilha, buscando refúgio e segredo para a marca que agora carregava em seu próprio corpo.

O livro é extremamente instigante, é bem desenvolvido e todo o mistério e os elementos místicos deixam a história sobre uma penumbra convidativa que te envolve e te faz apaixonar por ela. Essa magia entra em conflito constantemente com os dogmas católicos e essa luta entre cristãos e pagãos é uma forte marca que define todo o curso da narrativa. A Bretanha estava sendo invadida pelos saxões, guerreiros bárbaros infiéis, que ameaçavam a segurança e a vida do povo bretão. O cristianismo era usado então para unir e fortalecer a unidade do reino e evitar que além da invasão eles se dividissem em pequenas lutas entre si. Nesse cenário, todo e qualquer tipo de crença que não seguisse os preceitos da Igreja eram uma ameaça à essa união que eles buscavam e por isso, a ilha sagrada de Avalon foi se tornando cada vez mais marginalizada e desrespeitada. Então, as mulheres que lá viviam e utilizavam seus conhecimentos para a cura e para a comunhão com a natureza, enfrentavam mais um obstáculo na sociedade.

Em um mundo feito para os homens, o papel das mulheres era servir às vontades do marido e se comportar unicamente como objetos de prazer dos homens. Elas não tinham voz, nem mesmo um corpo próprio e Marion Zimmer Bradley conseguiu demonstrar esse lado com muita propriedade. É de se esperar que as sacerdotisas de Avalon fossem ainda mais subjugadas não é?! Mulheres, pagãs e livres para serem e pensarem como queriam. Isso assustava os homens. E esse é um dos motivos para a história ser fantástica, porque mostra a luta dessas mulheres independentes que buscam um lugar entre os homens para defenderem o que acreditam. Elas querem ser, não superiores, mas consideradas merecedoras de igual respeito e isso tornam aspectos da história atemporais. O livro foi publicado em 1982 e mesmo assim ainda conseguimos dialogar nossa realidade com a da história e da autora.

A narrativa é dinâmica e estruturada de uma forma que os aspectos históricos se fundem com a ficção e nos pegamos misturando os dois em um só mundo. A leitura flui de maneira rápida e é possível que o leitor imagine perfeitamente o cenário e se transporte para as belas paisagens que compõem a história. Ao final, já nutria um profundo respeito pelas mulheres que abdicavam sua vida para viver em comunhão com a Deusa e que defendiam com coragem seus ideais (além de serem feiticeiras incríveis). Bom, não achem que eu deixei o Artur de lado, não é nada disso. Ele só não é o foco do primeiro livro porque este mostra os bastidores do que precisou acontecer para que fosse possível que ele chegasse ao poder e se tornasse uma lenda contada por séculos e séculos. Mas não se assuste, ainda tem muita coisa por vir e mais três livros para nos inundarem com amor, intrigas, magia e muita história.

Algumas infos para você viajar em meio as Brumas ❤ a-senhora-da-magia

AS BRUMAS DE AVALON

Marion Zimmer Bradley

Páginas: 248

Ano: 1982

Editora: IMAGO

Gênero: Literatura Fantástica

Onde Comprar: Amazon

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