A Estátua de Laura

– Diz a lenda que pelos corredores de um antigo colégio uma jovem garotinha perambulava, correndo seus dedinhos pelas paredes de pedra fria que sustentavam a antiga instituição. Como era bonita aquela escola, uma pena que ela sentia tanta saudade de casa que não conseguia apreciar tudo que aquele espaço tinha para oferecer. Laura era o nome da pequena que passava seus recreios conversando com suas bonecas e dormia sonhando com amigos imaginários. Os de verdade, infelizmente, a faltavam e nenhum de seus outros colegas gostavam de conversar com ela. Laura foi crescendo e cada vez mais entrava para dentro de si mesma, se entristecendo com a crueldade daqueles que compartilhavam tantas horas e dias de suas vidas naquele internato. Um dia, seu coraçãozinho grande e bondoso que ninguém nunca se dera o trabalho de conhecer perdeu suas forças e parou, deixando a jovem branca como a neve e carregando o espírito dela para outro mundo.

“Mesmo depois de sua morte ela sentiu que não se importavam com ela. Apenas sua família foi ao seu enterro e lentamente sua mente foi escurecendo, escurecendo até que nem um pequeno filetinho de luz conseguia entrar. Ela se transformou em escuridão pura e decidiu voltar para o lugar que a havia atormentado para tirar a luz daqueles que tinham feito a mesma coisa com ela. Quando chegou lá visitou todos os seus cômodos favoritos, lembrando-se dos raros momentos de alegria que tinha vivido, sozinha, em todos os anos que lá havia morado. Chegou na biblioteca e notou um objeto novo. Uma estátua. Sua. Era ela esculpida e imortalizada em traços finos na argila, feitos pelas mãos habilidosas de um artista. Alguém tinha se lembrado dela, mas agora não adiantava mais. Ela estava tomada pela raiva. Tanto que decidiu entrar dentro da estátua e pregar uma peça em todo mundo.

Todos os dias, ela, com seus poderes, movimentava a estátua de lugar e aparecia em outro totalmente diferente e quando tentavam transportá-la de volta ela se fixava no chão tornando um fracasso qualquer tentativa. Ela fazia barulhos arrepiantes e dava risadas malignas e todos os alunos que se atreviam a ir até ela eram rapidamente enxotados de lá com rajadas de vento. Foram precisas 10 pessoas muito fortes para carregar a estátua para um canto isolado e secreto da biblioteca, onde ela permanece até hoje, só esperando alguma alma curiosa ir lá para despertá-la. Ela ficou tão obcecada com sua vingança que ficou presa e não consegue sair de lá”

– Mamãe, já te pedi para não me contar histórias de terror de noite. Eu não consigo dormir. – disse a pequena Ana, olhando para a mãe com uma carinha de reprovação.

– Mas quem disse que isso é uma história querida? – a mãe terminava de lavar a louça do jantar com calma a paciência e de vez em quando se voltava para trás para ver se a filha não estava de fato assustada com a história. Tinha ouvido essa lenda desde que era criança e nunca tinha se assustado. Seus pais a contavam para ver se ela passava a se comportar na escola e parar de desbravar o colégio como se fosse uma aventureira. Nunca havia adiantado e de certo não funcionaria com sua filha, que havia herdado a mesma curiosidade da mãe.

– Você. Fantasmas não existem. Não é possível que até eu que tenho 5 anos sei disso e você que tem 35 não sabe. – a mãe começou a rir. Ana era uma menina muito esperta e em determinadas ocasiões realmente parecia ser mais sábia que sua mãe.

– Você é muito esperta mocinha. Agora vá dormir porque amanhã você tem que acordar cedo. Ou já esqueceu a hora que a mamãe te chama? –  ela havia terminado suas tarefas e caminhava para o quarto da filha.

Ana ia ficando para trás enquanto as luzes iam se apagando, sendo tomada pelo breu. De repente ela pulou e agarrou a perna de sua mãe, afundando a cabeça na única pessoa que poderia protegê-la de qualquer coisa.

– Eu tô com medo. Essa história me assustou. Posso dormir com você?

A mãe riu. Não teve a intenção de assustar a filha e sabia que esta estava aproveitando a oportunidade para se deitar ao lado da mãe. Ana era corajosa e não acreditava em fantasmas ou histórias de espíritos de meninas presos em estátuas. Bom, pelo menos era isso que a mãe achava.

– Pode. – ela disse pegando a menina no colo e acariciando seus cabelos castanhos.

Uma hora havia se passado desde que tinham se deitado e Ana não parava de mexer de um lado para o outro. Abraçava sua boneca preferida com tanta força que a pobrezinha, em seu olhar congelado gritava por ajuda. Ela acariciava os cabelos loiros da fiel escudeira de todas as horas e conversava baixinho com a amiga, segredos que só as duas conheciam. A história realmente a tinha prendido porque quando sua querida boneca não conseguia a acalmar era sinal de que algo realmente não estava certo.

– Mamãe? – a menina chamou.

– Sim

– Tadinha da Laura. Ficar sozinha presa dentro de uma estátua sem ninguém pra conversar. – disse a menina, deitando de barriga para cima e encarando o teto, como se tivesse alguém ali olhando para ela.

– É né filha?! Todos nós merecemos um pouco de carinho e atenção. Não é a mamãe que sempre diz que todos os coleguinhas podem querer brincar, mas nem todos conseguem falar isso?

– Sim mamãe – Ana repetiu como se fosse obrigada a fazer isso frequentemente –  então a gente tem que convidar todo mundo. Porque aí quem não tinha falado que queria vai poder se divertir igualzinho.

– Muito bem querida – exclamou, orgulhosa, a mãe. A filha tinha um bom coração.

Elas se abraçaram e dormiram juntas, uma protegendo a outra dos fantasmas que rondavam o quarto.

No outro dia, Ana acordou cedo, se arrumou e foi para a escola. Os alunos não tinham mais que dormir lá como antigamente e todos os dias ela chegava animada para conversar com seus coleguinhas. Ela dava oi até para os mais quietinhos e eles até sorriam para ela de vez em quando. Era uma doce menina. Mas uma bem curiosa também. No recreio, aproveitou que todos brincavam de uma brincadeira que ela não gostava muito e foi sorrateiramente até a biblioteca, só para ver se a história que a mamãe tinha contado era de verdade.

Ela estava com medo, mas engoliu ele e saiu andando entre as estantes, procurando a tal estátua que tinha o espírito da Laura dentro. Ela andou por alguns minutos e chegou em uma parte desconhecida, silenciosa e vazia. Bem no canto tinha um armário grande coberto por um pano marrom maior ainda. Ela não viu a ponta no chão e sem querer pisou e derrubou todo o tecido. Ao se virar para ver o estrago que tinha feito ela se viu em frente à uma menina, a escultura de uma menina na verdade, que tinha uma feição triste e olhos vazios. Ela nem precisou ler o nome na placa para saber de quem se tratava. Ela era uma garota esperta, mamãe tinha dito. Sabia que era a Laura.

– Oi estátua da Laura. Você é bem bonita sabia?! E eu acho que você deve tá bem sozinha aqui nesse escuro né. Eu trouxe um presente. – Ana, que havia escondido ligeiramente uma de suas bonecas preferidas dentro de sua mochilinha, sem que a mamãe visse, tirou o brinquedo e colocou-o aos pés da estátua.

– Ela chama Marcela e tava precisando fazer uma viagem aqui para a biblioteca. Ela fica muito sozinha quando eu estou aqui na escola. Será que você pode cuidar dela para mim por favor? Ela é minha melhor amiga e acho que pode ser a sua também. Vocês podem brincar e ler juntas enquanto eu estou nas minhas aulas.

A pequena Ana saiu saltitando, de volta para seus amigos e sabendo que no outro dia ela poderia ir lá buscar a boneca que estaria no mesmo lugar. Afinal fantasmas não existem e a Laura dentro da estátua devia ser só uma história da mamãe para evitar que ela saísse escondida andando pela escola e para fazer com que ela sempre lembrasse de ser legal e gentil com todo mundo. Mas essa era só uma parte da verdade. No outro dia, no mesmo horário ela voltou na estátua para buscar sua boneca, mas no mesmo lugar em que a tinha deixado no dia anterior havia uma pequena flor branca, como a neve. Do outro lado, uma menina abraçava apertada uma boneca e sorria, enquanto seu coração abria uma frestinha para uma luz novamente.

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