Ratos, óculos e natal

Sentada aos pés da árvore eu escutava os pingos da chuva e via as luzes piscando. A bailarina dançava diretamente para mim, como seu eu fosse seu único público. Sua saia balançava a cada rodopio e a melodia silenciosa combinava perfeitamente com cada movimento. A tranquilidade da noite invadia cada coração e aquecia os pensamentos de cada mente. “Vem brincar também” chamaram as crianças pulando e vibrando de alegria. “Já vou, já vou” respondi cedendo à décima tentativa dos meus primos de me convencerem a me juntar a eles na brincadeira. E foi quando eu estava me levantando que olhei pela janela e vi. A magia aconteceu bem diante meus olhos e tudo passou a fazer sentido.

Na penumbra que sobrevoava minha rua consegui enxergar, próximos ao meio fio, duas pequenas figuras, sentadas no passeio. À medida que minha visão se ajustava à pouca luminosidade da cena pude perceber que eram dois garotos que riam e conversavam se protegendo da chuva embaixo da marquise. Entre suas risadas calorosas e inocentes eu conseguia captar palavras recheadas de carinho, o que era bem propício para a noite em que estávamos. O que não entrava na minha cabeça era o que dois jovens, com seus 10 anos de idade aproximadamente, estavam fazendo na rua, fora de casa justamente na véspera de Natal. Essa é a época preferida de todas as crianças, que ficam esperando de olhos brilhantes a chegada do Papai Noel e a hora de poderem rasgar com suas pequenas mãozinhas os presentes embrulhados em embalagens que demoram minutos para serem feitas e segundos para serem destruídas. Só conseguia pensar em como eles eram azarados de estarem longe de uma ceia gostosa e da emoção da noite.

Mas naquele momento eu era a azarada e aqueles dois meninos eram os sortudos. Um deles, o de óculos escuros, se apoiava no outro enquanto conversavam e reparei que ele encostava suas mãos em tudo, para ver as coisas a seu modo. O outro, ajudava o amigo a pegar o que queria e, apoiados um no outro, esperavam a chuva passar para poderem partir. De repente, eles levantaram com um sobressalto e deram as mãos. O garoto de óculos gritou alto até três e eles começaram a correr, gritando o mais alto que seus pulmões permitiam, até a marquise do outro lado da rua. Os dois riam com tanta vontade que comecei a rir também e fui inundada por uma felicidade que não sabia de onde vinha.

Por muito tempo os dois ficaram fazendo isso, segurando as mãos e correndo de um lado para o outro na rua. Eles iam e vinham para a mesma marquise e não pareciam cansar. Suas risadas eram a música que inundava a rua. Fiquei encantada com o carinho do amigo com o seu companheiro que via o mundo de um jeito um pouco diferente. Ele cuidava para alertar sobre os degraus e buracos e sempre deixava-o se apoiar nele na hora de pararem.

Muitas corridas depois os dois estavam encharcados, mas suas mãos ainda estavam entrelaçadas. Em nenhum momento elas se soltaram.O garoto retirou seus óculos e os limpou na roupa, dizendo para o amigo:

– Talvez seja melhor a gente parar. Uma hora eu ainda caio nesse chão e o que você vai fazer para impedir?

– Nada. Como vou te impedir de cair? Só se eu te amarrar no poste porque você não para quieto um minuto.

– Viu?! To falando. Vamos embora.

– Você não precisa deixar de brincar porque está com medo de cair. Se isso acontecer eu vou te ajudar a levantar. Mas só depois de dar umas boas risadas. Você até que podia cair para eu rir um pouquinho né?!

– Já te falaram que você é um trouxa?

– Já, mas sou o trouxa que vai te ajudar a se levantar. Sou seu guardião, cara. Mas se bem que a gente podia ir embora mesmo. Depois vai ser eu que vou ter que ficar te carregando até em casa.

Dizendo isso, ele ajudou o amigo a se levantar e eles foram seguindo seu rumo, a lentas passadas. Passaram bem na frente de minha janela e eu, estarrecida como tava, não me escondi a tempo. Eles me viram.

– Oh moça, sabia que esse menino aqui tem que enfrentar todos os perigos do caminho só para me proteger? O engraçado é que ele morre de medo de rato.

O outro olhou para ele com uma cara muito brava, mas o primeiro não se incomodou e continuou falando.

– Então eu estou a salvo. A não ser que um rato gigante resolva sair pelas ruas desertas dessa cidade, no Natal, só para me assombrar. Aí sim eu estaria lascado.

Ao dizer essas palavras ele se perdeu em constantes risadas, mas não altas o suficiente para o impedirem de ouvir o que eu tinha a dizer:

– Bom se um rato gigante resolver sair por aí acho que todos nós estaríamos em perigo. Eu aviso se vir um.

– Você é um idiota. Eu pedi para não contar isso para ninguém. – ele tentava demonstrar raiva, mas estava segurando para não rir também.

– Cara, mas é que é muito engraçado – disse o outro entre as risadas

– Da próxima vez vou te dar uma rasteira que você nem vai perceber. Ou então quebrar sua bengala, palhaço.

– Tudo bem, desculpa.

Os dois continuaram andando e cochichando. De repente um deles virou para trás, não dava para distinguir qual dos dois, estava sem meus óculos na hora, e gritou bem alto:

– Feliz Natal moça e cuidado com os ratos.

– Feliz Natal para vocês também.

Fechei a janela e voltei para a sala, onde meus primos brincavam sem nem perceber a minha demora. Chegou a hora em que todos trocariam os presentes e o Papai Noel desceu pelas escadas, fazendo a alegria das crianças. Recebi os meus com muito carinho e gratidão, mas no fundo eu não precisava de mais nada naquele Natal, tinha presenciado o melhor presente de todos.

Naquela noite sonhei com dois garotos sendo perseguidos por um rato gigante e com uma moça, na janela que gritou para o rato os deixarem em paz. Até hoje eu ainda não sei onde estava a ceia deles, mas sei onde estava o coração. E para aqueles dois jovens amigos isso era o bastante.

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