O Rei do Inverno – Bernard Cornwell (Resenha)

O que seria melhor, ir pelos flancos ou surpreender pela dianteira? Casamentos arranjados compram a paz? Até onde a vingança te guia? Se todas essas perguntas te intrigarem você pode sentar e ouvir a história que Derfel vai te contar e quem sabe encontra algumas respostas. Ele é um velho monge que, a pedido de Igraine, escreve suas memórias da vida do grande Rei Artur para eternizá-las e passá-las à todas as gerações. Ele narra sua visão do mundo e a partir dela enxergamos um lado diferente da lenda do cavaleiro da Távola Redonda que já nos foi contada tantas vezes e com tantas cores diferentes.

O Grande Rei Uther Pendragon estava doente e seu único herdeiro, Mordred, havia morrido em batalha. Seu filho bastardo, chefe dos cavaleiros (no caso o Artur mesmo), foi banido como culpado da morte do irmão e sua filha Morgana jamais poderia assumir a posição de líder da Bretanha. Encurralado nessa situação, Uther aposta na gravidez de sua nora para lhe dar o conforto que seu coração velho e preocupado precisa. Mas o pequeno herdeiro do Grande Rei nasce aleijado e lança um mau presságio em toda a Casa Pendragon. Para mantê-lo seguro ele e sua mãe são mandados até Avalon para ficarem sob os cuidados de Morgana (Merlin estava sumido) até que fosse possível retornar. Vale lembrar que a história do Rei Artur, independente da versão, envolve uma boa briga com os saxões e possíveis mortes de bastante gente então toda a bretanha estava em constante ameaça de guerra.

Lá em Avalon, começamos a nos envolver com nosso pequeno Derfel e descobrimos como ele se viu preso bem no meio da dramática e agitada vida da realeza de Caer Cadarn (ou Camelot, como você preferir chamar). Com o passar do tempo e alguns acontecimentos depois, Derfel e sua melhor amiga Nimue, a aprendiz e amante de Merlin, vão para Caer Cadarn acompanhando Morgana para viver no palácio com o pequeno Mordred. Com a morte de Uhter, o pequeno se torna rei e é designado a quatro guardiões que irão protegê-lo dos perigos externos e internos, vindos da própria regência de seu reino. A situação estava delicada, mas para os inimigos não há melhor oportunidade para um ataque e tudo que o reinado de Mordred não tem é sossego. Os saxões se aliam a alguém inesperado e a guerra começa.  

Em meio a todo esse cenário, acompanhamos de perto a luta do paganismo contra o domínio católico que tomava a Grã-Bretanha. Os druidas e feiticeiros ainda eram considerados por muitos como os detentores da sabedoria e comunicação com os deuses, mas pelo descrédito de outros foram enfraquecidos e desrespeitados. Merlin era o único que ainda tinha uma posição de confiança e por isso depositaram nele todas as esperanças de um tempo de paz, já que ele sabia a forma mágica e misteriosa de satisfazer as vontades dos deuses. Porém, Merlin estava desaparecido e isso faz com que Artur, que sempre fora muito querido dele, precise tentar de tudo para trazê-lo de volta.

É aí que entra Nimue, a garota tocada pela magia. Ela e Derfel tem uma relação muito profunda e são ligados pelo sangue (literalmente, eles fizeram um pacto), de modo que ele é um elemento importante para a vida dela e vive versa. Mas Nimue, apesar de todo seu poder e sabedoria, encontra algumas montanhas em seu caminho e sofre abusos e reprimendas que deixam nela cicatrizes irreparáveis. Cega pela fúria, ela busca todos os meios entre a terra e o céu para acabar com os inimigos que a fizeram sofrer tanto e de quebra dá uma ajudinha para Artur na sua infindável luta contra os saxões. Apesar de todo seu sofrimento, Nimue é um grande exemplo de poder e determinação feminina.

Já Morgana, infelizmente, não tem um papel de destaque na narrativa. Ela é caracterizada como uma sábia mulher, conhecedora dos ritos e tradições antigas, mas pela pouca proximidade com as tarefas de Derfel não tem muita participação. Mas isso não quer dizer que ela não seja a personagem forte que todos respeitamos. Na história de Bernard Cornwell, Morgana sofreu um acidente quando criança e teve uma parte do seu corpo queimado pelo fogo que a atingiu. Por isso, ela usa uma máscara de ouro que cobre suas cicatrizes e aprendeu desde cedo a vencer a dor de cabeça erguida. Segundo Derfel, muitas pessoas especulavam o que tinha por baixo da máscara e esse era um dos muitos motivos que faziam de Morgana uma mulher muito temida e respeitada, afinal cicatrizes eram vistas como marcas do demônio.

O papel das mulheres é um pouco secundário, porque o autor evidencia o lado político da história e nessa parte as mulheres não tinham voz. Elas não demonstram força nem autonomia e a grande maioria só consegue exercer um pouco de influência quando usa de seus poderes da sedução. Apenas com as mulheres de Avalon que a situação era de menos subordinação, afinal elas tinham um ar de autoridade que eram poucos os capazes de desafiá-las.  

Ao contrário de As Brumas de Avalon (se você perdeu corre aqui), O Rei do Inverno é um livro com os pés muito mais no chão do que nas nuvens. Por Bernard Cornwell ser um historiador ele tem um compromisso muito maior com descrever os acontecimentos compatíveis com a realidade da época e com os fragmentos da lenda encontrados por ele em sua pesquisa. Portanto, seu universo é mais político, cético e aborda características da história de modo mais real e concreto. É um livro denso e minucioso, aprofundado nos conflitos ideológicos e internos e traz páginas e mais páginas de discussões sobre táticas de guerra e políticas de reinado. Ele explica tão bem as estratégias utilizadas que chega a ser quase uma narração técnica. Além disso, as lutas tem um destaque crucial na narrativa, para ilustrar a situação de guerra a qual estavam todos enfrentavam. É nessa hora que a magia faz falta, para suavizar a história e dar um toque de mistério nas conquistas e nas derrotas.

Mas eu falei, falei, falei e no fim das contas não disse nada sobre Artur não é?! O que acontece é que esse primeiro livro contextualiza a situação em que a Grã-Bretanha estava e narra os acontecimentos antes de Artur se tornar rei (se é que nessa versão ele irá se tornar). Ele, como um dos guardiões de Mordred, precisa proteger o menino e tomar algumas decisões no seu lugar e como Derfel o venera ele fala muito sobre a personalidade e os feitos de Artur. Assim, conseguimos ver sua luta contra seus princípios de ética e perdão para conseguir sair vitorioso de uma luta que a muito já parecia perdida. Sua honra é testada a todo momento e ele conhece o sacrifício pessoal que um governante precisa fazer diariamente em favor da boa condução de seu povo. O fim desse capítulo conclui o conflito apresentado, mas só abre mais portas para o desenvolvimento da história dessa cavaleiro que tanto me fascina. Pelo que já li da sinopse do próximo (Inimigo de Deus), ganhamos um pouco mais da companhia do querido Artur e estou esperando ansiosamente por isso. Acho que já deu pra perceber como sou fã dele, não é mesmo.

Confira algumas infos super úteis para você adquirir o seu 🙂

O REI DO INVERNO – AS CRÔNICAS DE ARTUR  images-livrariasaraiva-com-br

Bernard Cornwell

Ano: 2001

Páginas: 546

Gênero: Romance Histórico

Editora: Grupo Editorial Record

Onde comprar: Amazon

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