Querida amiga,

É uma grande pena termos perdido o costume de escrever cartas. Onde estão nossos papéis decorados e a infinidade de adesivos que as preenchiam? Tenho saudade de tempos que não conheci, quando perfumes eram gastos com palavras e dentro de cada envelope dava para sentir o cheiro querido do remetente do outro lado. Ah, que falta sinto de sentar-me em frente a um papel em branco, pensar em alguém e deixar minhas penas transcreverem meu sentimento. Que falta sinto das histórias de minha vó.

Recordo-me de quando era pequena, sentada ao sol nos portões de minha casa. Minha avó, ao meu lado, contava-me histórias de sua mocidade e das horas que passava naquele mesmo lugar esperando pelo seu amigo que trazia as correspondências dos arredores. Quando ele chegava, ela levantava-se depressa e ia interceptá-lo para saber quais surpresas ele a traria. Os envelopes coloridos eram rapidamente rasgados e vovó passava muito tempo do seu dia analisando o conteúdo misterioso que vinha dentro de cada um. Muitas eram do vovô, ela me contava ainda enrubescendo, selando juras de amor para a moça que o havia conquistado.

Ela então, equipada com seu fiel escudeiro lápis, redigia longas respostas que, do outro lado, eram esperadas com a mesma ansiedade com que uma criança espera a chegada do natal. Algumas outras eram de amigos que contavam as fofocas, secretas demais para saírem nos jornais, que arrancavam risadas da doce moça e davam assunto para longas horas de conversa. Seu belo rosto de alegrava quando me contava essas memórias e eu me alegrava junto, também esperando pelas minhas próprias cartas que chegariam na caixinha decorada do lado de fora de minha casa.

Hoje, as mãos marcadas pelo tempo e pela história de vovó não mais rasgam envelopes ou escrevem cartas. Não mais aguardam o carteiro porque quando ele chega só traz números e prazos nos papéis pardos e tristes. Hoje, nós duas sentamos na varanda sonhando com tempos que já não voltam mais. Constantemente, me pego viajando para esse tempo em locais e horários que deveriam ser destinados à realidade e não aos sonhos. Quando vou à sua casa, vovó me conta outras histórias e a cada vez que o tempo passa, as cartas de sua juventude ficam mais amareladas e esquecidas.

As vezes paro e me pergunto para onde vão as cartas de amor escritas pelo mundo. Elas devem estar perdidas nos ares da imaginação e ainda não acharam um retorno que leva à realidade. Precisamos dar a elas uma direção, nem que seja para o fundo de nossa própria gaveta. As palavras gostam de ser escritas pela nossa mão, que a muito deixou de exercitar-se porque lápis e canetas não servem mais para correr por entre as linhas dos cadernos de rascunho. As palavras gostam de sentir o contato caloroso com o papel quando são trazidas à vida. Mas agora elas só sentem a frieza de telas brancas e reluzentes. Agora elas são rápidas, abreviadas e diretas, sem os floreios que desenhavam as palavras e marcavam exatamente o dono do sentimento. Bom, pelo menos elas não estão extintas, pelo menos ainda são escritas. Pelo menos ainda se preocupam em traduzir sua alma para o papel, aliás para a tela.

Se eu fosse escrever uma carta hoje diria como a cor azul do céu me enche de felicidade ou como a brisa leve que bate em meus cabelos joga em meus ouvidos várias histórias dos que me antecederam. Contaria sobre amores que já não amam mais, ou de flores que já perderam o cheiro. Falaria das ruas esburacadas de nossa cidade e das Minas, que são muitas. Falaria da espera de Julieta pelo seu amado e da tristeza que assolou o coração partido de Rubião, mas a magia que falta no mundo ficaria de fora. Diria tudo que há entre o céu e a terra, mas essa carta seria vazia e o envelope, ainda selado, seria devolvido aos correios por falta de endereço. Porém, como sou teimosa e ainda atada à tradições que nunca foram do meu tempo, me encontro diante de você, escrevendo palavras sem sentido, sem caminho, sem destino.

 

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