Metamorfose ambulante

Há muitas era atrás, um jovem guerreiro, para muitos um rei, disse que “nós somos o que somos e não o que fomos um dia”. Ultimamente, tenho visto que sua sábias palavras, apesar de tocadas pelos anos, são tão atuais quanto minha própria existência. A mudança é a única certeza e quando ela vem não há nada que rebobine a fita para onde estava. Uma hora os pagãos dançavam aos seus deuses, outra hora eram queimados nas fogueiras. Uma hora, duas horas, alguns anos, quantos já se passaram? Assim como as ondas, a vida também tem seus ciclos, e afinal quem sabe onde elas começam e onde elas terminam? São milhares de fins seguidos de ainda mais recomeços.

E quem te disse que o relógio marca as horas? Não se engane, ele marca a vida, em toda sua inconstante certeza. Seu barulho confortante acolhe e seu movimento é tão certo quanto a falta dele. Os ponteiros correm, ansiosos para seguirem em frente, nunca para trás. É aquela estranha sensação, lá no fundo, que nos diz que já passou, não volta mais. E mesmo se voltasse o momento não seria o mesmo, o ponteiro não seria o mesmo. Nós somos o que somos e não o que fomos um dia.

Os homens, desde cedo, saiam de casa para trabalhar e construir sua mudança. Eles mudam, as casas ficam. Como seria bom se suas paredes falassem! Todos os desenhos já teriam se mostrado, todas as almas já teriam contado. Elas ficam imóveis observando memórias serem criadas, dão boas vindas e adeus e sua sóbria longevidade é algo que muitos gostariam de ter. Por um lado somos bem parecidos, talhamos em nossos corpos lembranças e eternizamos novas histórias. Certamente saberíamos das secretas discussões ou das traições veladas e em nosso próprio momento voltaríamos no tempo. Voltaríamos para as carruagens, para as velas, para os nascimentos e para as mortes. Mas perderíamos as surpresas, as euforias, a esperança e as possibilidades. Nossas mãos nasceram para correrem livres pelo mármore esculpindo o futuro.

Por que então ficarmos parados? Somos seres inconstantes, não fadados a ficar em um mesmo lugar. Mesmo as árvores, presas ao solo por suas imensas raízes se movimentam com o bater do vento. Algumas, com uma leve brisa, já balançam suas folhas, outras são teimosas e preguiçosas e precisam que venham fortes tempestades, daquelas que arrancam galhos e raízes, para mexerem um pouquinho. Tudo muda, tudo movimenta. É inevitável, então por que nadar contra? Nos agarrar ao que foi um dia por medo do que está por vir só serve para machucar as mãos e arranhar os braços. Devemos aprender tudo o que podemos com o passado e soltá-lo para que ele vá para as paredes, como um retrato de uma memória. Não podemos desejar estar atrás se só conseguimos ir para frente. Nós somos o que somos, não o que fomos um dia. As mesmas mãos que começaram essas palavras não são as mesmas que as terminam.

“Nós somos o que somos e não o que fomos um dia” foi tirado do Inimigo de Deus, um livro mágico do Bernard Cornwell que já já aparece em resenha aqui 🙂

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2 comentários sobre “Metamorfose ambulante

  1. Que reflexão mais linda! Realmente faz pensar e a ideia de voltar no tempo para refazer uma escolha fica parecendo ruim! Por que essas escolhas que nos fazem quem somos hoje.

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