Sempre vivemos no castelo – Shirley Jackson (Resenha)

Os castelos são figuras imponentes e magnificas que significam, além de poder e realeza, o passado. As pedras em suas paredes preservam uma realidade fora de seu tempo. Suas muralhas, fortes, fecham o mundo interior e as pessoas que lá moram ficam em sua bolha atemporal. Hoje, quem olha para um castelo logo imagina a vida em séculos tão distantes do nosso e se perguntam como é possível que essas vivências tenham permanecido intactas ao longo do tempo.

De certa forma, os castelos são mais comuns que imaginamos e Mary Katherine faz questão de manter o seu sempre em ordem e inviolável. Desde que uma parte de sua família morreu e sua irmã foi acusada do crime, elas vivem fechadas em sua casa, isoladas do resto do mundo. Constance, a irmã, nunca coloca os pés fora do perímetro da residência e vive para cuidar de sua irmã e do Tio Julian. O passado cruel da família é constantemente lembrado e revivido e Tio Julian só fala sobre a última noite “deles”, obcecado em escrever os mínimos detalhes do ocorrido. Nenhum dos três seguiu em frente, os fantasmas permanecem ainda vivos dentro da casa.

Mas os três são felizes, à sua maneira. E preciso dizer que é uma maneira levemente perturbadora. Mary Katherine é uma jovem (de dezoito anos) com a mente conturbada e deturpada e tem uma obsessão quase doentia em manter a rotina da casa intacta. Ela deseja levar Constance e tio Julian pra lua e proteger seu castelo contra as invasões das pessoas de fora. Estas, que moram no vilarejo, odeiam a família Blackwood e não hesitam em demonstrar esse ódio através das piadas e comentários maldosos toda vez que Mary Katherine vai até o vilarejo. A menina, por sua vez, imagina os passeios do lado de fora como jogos de tabuleiro no qual em determinado momento todas aquelas pessoas estão mortas e ela reina sobre seus cadáveres.

A escrita da autora acompanha de forma incrível o raciocínio da jovem e é desenvolvida como se fosse realmente uma expressão exata dos seus pensamentos. Por isso, a leitura pode ficar bem confusa às vezes e até um pouco sem pé nem cabeça. Mas isso só acontece porque Mary Katherine, ou Merricat como sua irmã a chama, vive em um mundo diferente do nosso e ao entrarmos em sua cabeça somos pegos pelo choque de realidade. Esse é definitivamente um dos elementos mais interessantes da obra. Todos os personagens foram bem delineados e nas poucas páginas da história já conseguimos conhecê-los profundamente.

Além disso, a narrativa também é muito aflitiva porque é difícil compreender a vida dessas meninas e como elas não veem que a maneira como elas insistem em viver no passado as prejudicaram durante muitos anos. Só nós, que estamos do lado de fora das muralhas do castelo, conseguimos ver que ele está se deteriorando enquanto as marcas que ele deixou lá dentro já estão enraizadas demais para serem retiradas. A estrutura frágil em que elas vivem foi totalmente abalada com um simples toque da campainha, junto com a chegada de um primo que veio fazer uma visitinha.

O livro nos faz pensar em como as pessoas se acomodam em viver nas lembranças, em viver isoladas em suas bolhas e muralhas. Constroem as próprias barricadas e impedem as novas memórias de chegar. A história tem alguns toques macabros, principalmente pela narrativa em primeira pessoa mostrar a visão de Mary Katherine. Ela pensa e deseja a morte de muitos, além de usar todas as artimanhas para jogar, inconscientemente, com o inconsciente de sua irmã e as manterem presas em seu confortável castelo. Ela tem medo da mudança e tem medo que redoma de vidro sob a qual sua verdade está inserida se quebre. Porque ela tem a certeza de que vivem plenamente e não precisam de mais nada, afinal: “(…)Ah, Constance, eu disse, nós somos tão felizes.”’

Vale dizer que esse livro não consegue ser esgotado com apenas uma leitura. Sinto que muita coisa eu deixei passar e ainda não compreendi verdadeiramente a essência da história. Portanto, para embarcar nesta aventura é necessário disposição e a ciência de que você precisará visitar as irmãs Blackwood mais algumas vezes até entender qual é a delas. De certo que essa obra exige intensa reflexão e sua proposta é exatamente essa, provocar no leitor sentimentos e pensamentos conflitantes que o irão instigar a organizá-los e refletí-los. Pode parecer trabalhoso e chato, mas a leitura se torna prazerosa quando você percebe que as palavras vão muito além do alcance da nossa imaginação.

Confere as infos aqui 🙂

SEMPRE VIVEMOS NO CASTELOsempre vivemos no castelo

Shirley Jackson

Ano: 1962

Páginas: 193

Editora: Suma de Letras

Gênero: Mistério (Ficção norte-americana)

Onde comprar: Saraiva

 

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