A máquina de Helena

Havia finalmente chegado o grande dia. Era um ritual de passagem na família. Todos os primogênitos passavam por isso. E na maioria das vezes eram as meninas, era quase uma tradição na família terem primogênitas. Ninguém tinha muita escolha, era assim desde sempre. Então enquanto as outras garotas de sua idade ganham computadores, Helena ganhou uma máquina de escrever antiga. Essa era a grande tradição. Sempre que a primeira filha (ou filho) completava 13 anos, a máquina da família era passada para ela.

Helena estava muito empolgada. A muitos anos cobiçava a máquina que ficava na mesa de trabalho de sua mãe. Ela adorava ouvir as teclas correrem rápido tarde da noite, era sua canção de ninar. Como era a neta mais velha, seria a primeira de suas primas a ganhar a máquina. Sempre quis poder escrever suas fantasias naquele receptáculo de história. E agora finalmente podia.

Voltava da casa de sua avó segurando bem forte aquela preciosidade. Ao chegar em seu quarto foi logo colocando-a em cima de sua cama para começar a viajar. Pensou durante um bom tempo sobre como seria a experiência, mas nada se comparava ao que estava sentindo naquele momento. Um grande e vazio nada. Um branco. Não era possível. Logo agora ela teria bloqueio criativo? Pegou os papéis em cima de sua mesa e posicionou-os no lugar correto. Já sabia exatamente como operar a máquina. Todas eram obrigadas a aprender e com ela não tinha sido diferente. Mas não estava adiantando. Realmente não sabia o que escrever e decepcionaria toda sua família. Todos esperavam uma belíssima história, como ela sempre fazia. Odiava desapontá-los.

Helena então passou a observar a máquina. Quem sabe assim o tempo não passaria mais rápido e teria alguma ideia? Todos os nomes que já haviam tido aquela máquina estavam talhados (ou escritos, colados, rabiscados) em cima dela. Eram tantas pessoas, tantas mulheres, e alguns eventuais rapazes. Era uma grande honra poder fazer parte daquilo. Com sua caneta preferida, uma azul que tinha ganhado de aniversário, Helena escreveu seu nome ao lado do de sua avó e sua mãe.

Respirou fundo, se lembrando de como amava passar muitos momentos com sua família. Se lembrou das risadas, dos choros, das histórias que suas tia-avós contavam (família de escritor dá nisso) e das aulas de datilografia. Eram conversas infindáveis e em muitas delas aquela máquina esteve presente. Quase como se fosse o centro de tudo. A única razão para a família existir era para passar a máquina para frente. Durante um tempo, Helena se sentia chateada. Só juntavam para falar da máquina, todo o resto era segundo plano. Já teve até raiva de toda essa história de tradição. Era tudo uma grande besteira. Quem negaria os benefícios da tecnologia por um instrumento velho e lento como uma máquina de escrever? Ninguém em sã consciência certamente.

Mas esses sentimentos logo passaram. Muitas de suas primas ainda se sentiam assim, não queriam a máquina e muito menos escrever. Mas ela não. Compreendeu que isso tudo eram apenas símbolos daquela família. Era uma desculpa para se encontrarem. Com ou sem a máquina elas continuariam existindo e logo arrumariam outro motivo para continuarem se vendo. O laço de amor era maior que a vida de uma máquina. De olhos fechados ela agradeceu por isso. Agradeceu por nascer com o dom da família e ter tanto amor por ele.

Então (e agora é a hora da licença poética), ela sentiu uma mão tocar-lhe os ombros, sentiu a força de todas aquelas pessoas que haviam dedicado sua vida para levar contos e histórias a outras. Ela sentiu suas ancestrais passando o bastão para ela. Agora era a sua vez, a hora de dar continuidade ao legado. Helena se sentiu fortalecida. O momento de escrever havia chegado. Abrir as portas da sua imaginação e deixar toda a pureza de sua mocidade falar. Ela estava pronta.

Assim, ela escreveu. Escreveu sobre uma família, sobre uma máquina, sobre dedos batendo velozmente enquanto letras voavam no ar. Escreveu sobre o amor em volta de uma tradição e sobre o carinho pelas palavras. E, à medida que ela escrevia, conseguia sentir os sorrisos daquelas que haviam começado tudo. Sentiu o amor. Com isso, ela permaneceu escrevendo, dando voz às suas gerações anteriores e quando sua filha, no futuro, completasse 13 anos, ficaria feliz em participar do ritual e passar a máquina para ela. Passaria o legado para suas primas e depois para as filhas de suas primas. Porque por mais que a máquina deixasse de existir, as palavras continuariam vindo, correndo no sangue que elas compartilhavam. No fim, o instrumento não faz a diferença, o que importa verdadeiramente é o que está por trás dele.

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