Ensaiando palavras

Estava eu, em mais uma de minhas aulas de dança, ensaiando dedicadamente uma coreografia montada com muito amor. Meu professor, sabiamente, nos parou no meio de uma complicada sequência e simplesmente disse que ser coreógrafo é algo um tanto quanto desafiador e que a pessoa surta mesmo. Se pudéssemos entrar dentro da cabeça de um veríamos as engrenagens girando a mil tentando se encaixar, mostrando imagens e movimentos que ele precisa organizar de modo a se adequar ao tempo, espaço e aos corpos que vão recebê-las.

Aquilo me deu no que pensar. Fui conversar com as diversas faces de mim mesma em minha mente e cheguei à conclusão que também sou uma coreógrafa. Mas de palavras. Ela também aparecem em minha cabeça, causando um alvoroço e misturando fantasia com realidade, gritando, batendo, construindo pessoas e situações. É uma confusão constante. Meu trabalho é organizá-las e ordená-las do melhor jeito possível do lado de fora. Crio uma dança na folha branca e cada palavra recebe seu papel nesse espetáculo. Agora imagine, palavras de amor e ódio, de hoje e de ontem, de universos distintos. Como fazer com que elas conversem entre si? E ainda pior, como fazer com que elas entrem em harmonia com a música que lhes foi disposta? É um trabalho complicado.

É desafiador fazer todas as faces de uma mesma pessoa – porque é isso que as palavras são, representações das faces de uma só pessoa – falarem a mesma língua e ficarem em posições que se completam e não estragam o desenho da coreografia tão bem pensado. As engrenagens rodam, o relógio bate e internamente, devagarzinho e com muito esforço, as coisas começam a clarear. O ambiente entra em sintonia com o que estou pensando e de repente vejo tudo fluir. Como uma cachoeira, meu coração se abre e deixo aquelas falas jorrarem. É preciso colocar todo aquele alvoroço para fora para depois vermos o que se encaixa e o que não se encaixa naquele momento.

Aí chega a hora de limpar aquela coreografia. Tirar os excessos, moldar as palavras, construir os parágrafos e fazer com que cada uma delas cumpra com perfeição o papel designado. É realmente um ensaio, repetido, constante, trabalhoso. Uma preparação para o dia da apresentação final, quando o texto finalmente estará pronto. E não existe orgulho maior o de ver nossa criação ser transmitida, tocar tantos corações. Essa vida de coreografar é ao mesmo tempo cansativa e (muito) recompensadora.

Não, eu jamais saberei como é a cabeça de um coreógrafo de dança. Jamais saberei o que é criar movimentos para serem executados por vários corpos. Nunca saberei a angústia e o deleite de ter um espetáculo acontecendo dentro de mim. Ou muito menos levarei aos grandes palcos, iluminados, as minhas criações. Mas eu sei o que é coreografar palavras, alimentar histórias e ver um mundo sendo criado bem diante de mim. Eu sei o que é traduzir sentimentos muitas vezes intraduzíveis para a língua humana. Os dois trabalhos são incomparáveis, mas ao mesmo tempo extremamente difíceis de serem executados. O máximo que fazemos é persistir tentando e sonhando para fazermos jus à arte da vida. Either way, coreógrafos de dança ou de palavras, são criadores. Criadores de mundos, de arte e da vida.

 

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